• Inês Ferreira

A lenda de Miragaia

Conta a lenda que, no século X, o rei D. Ramiro II de Leão e das Astúrias viajou de Viseu, onde residia para raptar Zahara, a irmã do xeque Alboazar. Este por vingança, raptou a esposa de Ramiro, a rainha Gaia. Alboazar e Gaia apaixonaram-se um pelo outro. O rei Ramiro, desconhecendo este amor, vai até ao castelo, acompanhado do filho e das suas tropas, que ficava na margem esquerda do Rio. Ramiro escondeu as suas gentes numa encosta e, disfarçado de peregrino, subiu a encosta e foi esperar perto de uma fonte. Uma criada da rainha Gaia veio buscar água à fonte para a sua ama. Sem que a criada se apercebesse, Ramiro escondeu o seu anel na bilha de água e esperou.


A rainha Gaia, ao encontrar e reconhecer o anel, mandou chamar o peregrino. Apaixonada pelo mouro, decidida a ver-se livre do marido cristão, embriagou-o e fechou-o num quarto, até à chegada de Alboazar. Ramiro tentou resistir, mas em pouco tempo foi subjugado pelas gentes do mouro. O xeque, sorrindo, perguntou-lhe o que ele, um rei cristão, faria na situação dele, se tivesse capturado um inimigo. Lembrando-se do que havia combinado com os seus homens, que ainda estavam escondidos na encosta, Ramiro respondeu que o obrigaria a comer um capão, beber um jarro de vinho, e depois o obrigaria a ir ao topo de uma torre tocar trompa até ficar sem ar. Alboazar achou piada à ideia e garantiu que seria assim a sua morte. Para maior triunfo, mandou abrir os portões do castelo convidando todos os que muravam fora dos muros do castelo a assistir.

Postal de 1902. Fonte: Arquivo Municipal do Porto


Ramiro comeu, bebeu, foi conduzido ao alto da torre e tocou trompa. As suas tropas, ao ouvirem o sinal combinado, entram pelos portões do castelo, chacinando as tropas desprevenidas. Com Alboazar morto, levou a rainha Gaia para o barco. A bordo, reparou que a rainha chorava, enquanto via desolada as ruínas do castelo. Quando lhe perguntou porque chorava, a rainha terá dito que ali foi realmente feliz, e que ela e Alboazar estavam apaixonados. Perplexo e sentindo-se traído, o Ramiro responde, enquanto puxa da sua espada: "Pois mira, Gaia! Mira Gaia, que esses olhos não terão mais que mirar!". E executou a rainha.






Ainda hoje, a encosta que o rei teria subido em Gaia denomina-se rua do Rei Ramiro, a fonte também tem o nome do rei. O brasão da cidade de Vila Nova de Gaia mostra uma torre com um cavaleiro a tocar trompa. No Porto, em frente ao lugar onde a rainha terá sido morta, passou a chamar-se Miragaia.






É, no entanto, possível que a explicação do nome de Miragaia seja bem mais simples: Miragaia está em frente a Gaia, ou seja, é possível mirar (ver) Gaia.


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